domingo, 11 de agosto de 2019

Refutando a Teologia da Prosperidade - 2ª Parte


Segundo a Teologia da Prosperidade, Deus concede riqueza e bens materiais a quem Lhe é fiel e paga o dízimo com generosidade.

Esta concepção não existe na Bíblia, e está mal fundamentada, como se veremos a seguir.

1. A retribuição póstuma no Antigo Testamento
A Teologia da Prosperidade procura apoio nos escritos do A.Testamento

  • Na verdade, os mais antigos livros sagrados do judaísmo propunham para esta vida mesma a retribuição devida aos bons e aos ímpios.
  • Aos bons tocaria vida longa, saúde, riqueza, ao passo que os ímpios teriam vida breve, doenças e miséria,(Dt 28)
  • Tal concepção era devida às noções antropológicas dos primitivos judeus:

Ø Afirmavam que após a morte do indivíduo o espectro ou os refaim (núcleo da personalidade) iam para um lugar subterrâneo (Sheol), onde ficariam adormecidos, incapazes de receber qualquer sanção, donde resultaria a necessidade de admitir a retribuição na vida presente. 
Ø Com o tempo, porém, os judeus foram percebendo a inconsistência dessa visão escatológica.
Ø O livro de Jó considera o problema, propondo o drama de um homem temente a Deus, mas privado de seus bens materiais e ferido por grave moléstia; às queixas de Jó Deus responde impondo silêncio; o homem não é capaz de compreender os desígnios de Deus.
Ø O livro do Eclesiastes aborda também o problema e afirma que os valores materiais são como o vento que não fica na mão de quem o quer apreender.
Ø Através de Jesus vemos a noção de ressurreição dos corpos, que põe fim à noção do Sheol e permite antever a retribuição no além, estando consciente a alma do falecido:
Dn.12:2 “Muitos do que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas por toda a eternidade”.
Assim se abria a possibilidade de uma justa sanção no além, que os escritos do Novo Testamento professam claramente:
Mt.25:36: “Dirá o rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo”.
1Co.2:9: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem jamais percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que O amam”.
 2. O “seguir a Cristo” no Novo Testamento
Jesus não propôs riqueza nem prosperidade aos seus seguidores - Na verdade só quem promete prosperidade, reinos e poder no N.Testamento foi satanás - Jesus Prometeu, sim, vida, e vida em abundância. 
Jesus não falava de forma alguma desta vida mortal, sempre ameaçada, que o homem conhece na terra, mas a vida imortal em comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. (A Abundância prometida é esta)
O que Jesus previu para seus discípulos foi uma parcela de sua cruz mediante a qual devem chegar à bem-aventurança celeste:
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16:23).
Diz o Senhor no Apocalipse: “Repreendo e educo todos aqueles que amo” (3:13).
O autor da epístola aos Hebreus explica o porquê dessa atitude divina:

“É para a vossa educação que sofreis: Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não educa? Se sois privados da educação da qual todos participam, então sois bastardos e não filhos” (Hb.12:7).
Vê-se, pois, como é falso apregoar que Deus paga em dinheiro e bens materiais a quem Lhe é fiel.
3. Ambigüidade das riquezas
Duas passagens do Novo Testamento chamam a atenção para a ambiguidade da riqueza.
Sim é correto orarmos e desejar que não haja miséria, mas também não se pode crer que o dinheiro seja um valor irrestrito; ele pode mesmo tornar-se uma cilada, como se depreende da advertência do Apóstolo:
1Tm.6:5-10: “… supondo que a piedade é fonte de lucro. A piedade é de fato grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar. Pois nós nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma dele podemos levar. Se, pois, temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem em tentação e cilada, e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que mergulham os homens na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com múltiplos tormentos”.

Estas ponderações servem para dissipar a ideia de que se podem comprar os favores divinos mediante uma piedade interesseira, fazendo-se da religião um Pronto Socorro Financeiro.
  
  •        Os promotores do falso “evangelho da prosperidade”  frequentemente gostam de falar sobre “semear”, “ofertas de semente da fé” e “retorno de cem vezes”.
  •        Uma oferta de fé é dinheiro dado com fé que Deus o multiplicará e devolverá ao doador. 
  • Quanto mais dinheiro você der - mostra que mais fé você tem - mais dinheiro você receberá em troca.

·        Pregadores da prosperidade muitas vezes solicitam presentes a seus ministérios prometendo retornos em espécie: "Envie-me R$ 10 e confie que Deus devolverá R$ 1.000". 

     Eles dão aos seus apelos por dinheiro um esplendor espiritual com declarações como “Deus quer abençoar você com um milagre” e “Jesus é maior do que a sua dívida”.

·        Eles usam de forma inadequada versículos como Mc.4:8: “Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um.” É bom lembrar que a “semente” neste versículo é a Palavra de Deus (Mc.4:14), não o dinheiro.

·        Os “teólogos da prosperidade” se esmeram em espalhar o conceito de ofertas da semente da fé, “ensinando” as pessoas a esperar um milagre quando semeassem uma “semente” de sua “necessidade”.

·        “Para superar os problemas da vida, ver sua vida se tornar frutífera, multiplicar e fornecer abundância (isto é, saúde, prosperidade, renovação espiritual, na família ou em si mesmo), você deve seguir a lei divina do semeador e da colheita.

·        Semeie a semente no solo de sua necessidade, só assim você receberá a sua promessa” , ou seja, “Resolva suas necessidades de dinheiro com sementes de dinheiro” .

·        Não importa quão pouco você pense que tenha, semeie em alegria e fé, sabendo em seu coração que está semeando para que possa colher milagres. Então comece a esperar todos os tipos de milagres”

·        De acordo com os “teólogos da prosperidade”   o caminho para aproveitar a lei da semeadura e da colheita é triplo:

1) Olhar para Deus como sua fonte,
2) Dar primeiro para que possa ser dado a você
3) Esperar um milagre.


·        Como um “texto de prova” para o segundo passo, os pregadores da prosperidade gostam de usar Lc.6:38: “dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão; porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão também.”

·        O uso indevido deste versículo começa com sua aplicação para ganhos materiais - Jesus estava falando primariamente do perdão em Lc.6:37, não do dinheiro.

·        Além disso, há uma diferença entre “Dar e” e “Dar para que”. Pregadores da prosperidade defendem um motivo egoísta para dar - dê para que você possa obter - e eles declaram isso. 
  • A Bíblia ensina que nós damos para beneficiar os outros e glorificar o Senhor, não para enriquecer.


Ø Pregadores da prosperidade também usam Mt.17:20: “Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” É claro que este versículo não diz nada sobre ganhar dinheiro ou fazer ofertas financeiras.

Ø Outra passagem usada de forma indevida pelos pregadores da prosperidade é Mc.10:29–30: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos.”

Ø Os pregadores da prosperidade aderem à promessa de “cem vezes mais”, mas aplicam-na apenas a “casas” e “campos” - isto é, riqueza material. Eles ignoram o resto da lista. Devemos supor que Jesus prometeu aos seus seguidores cem mães literais ou que deveríamos esperar cem vezes mais parentes de sangue do que temos agora? Ou Jesus estava falando de uma crescente família espiritual? Já que as mães e pais e irmãos e irmãs são espirituais, então talvez as casas e campos sejam espirituais também.

 Os que promovem essa doutrina ignoram vários detalhes importantes nas Escrituras:

Ø 2Co.9:10-12: “Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus. Porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus.”

Ø Esta passagem diz que Deus fornece a semente para semear; isto é, Ele fornece os recursos para darmos generosamente. E, quando damos, Deus fornecerá mais recursos para que a doação continue.

Ø Note, no entanto, que a colheita não é ganho monetário, mas “frutos da vossa justiça”.

Ø Além disso, é gratidão a Deus que transborda, não nossas contas bancárias. A semente semeada nesta passagem não resulta em milagres ou em riqueza pessoal.

Os que promovem a prosperidade aos cristãos também ignoram o fato de que os apóstolos não eram homens ricos. Os apóstolos certamente deram aos outros:

“Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma…” (2Co.12:15). Baseado na doutrina da prosperidade Paulo deveria ter sido um homem rico.
No entanto, “Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos” (1Co.4:11). Os apóstolos eram materialmente pobres, ainda que fossem espiritualmente abençoados pelo Senhor.

Deus ama quem dá com alegria (2Co.9:7), mas não devemos supor que Seu favor será mostrado em retornos financeiros.

Igualmente errado é nos apropriarmos de promessas feitas ao Israel do Antigo Testamento para nós mesmos.


Nosso motivo para dar não deve ser receber dinheiro em troca. Nosso objetivo deve ser piedade com contentamento (1Tm. 6:6–10).

Devemos orar: “Senhor, ajuda-me a aprender a estar contente com o que tenho, mesmo que esteja com fome ou necessitado” (Fp.4:11–13)

O ensinamento da teologia da prosperidade equivale a pouco mais do que um esquema de enriquecimento rápido que ataca os desesperados e feridos entre o povo de Deus.

Pedro advertiu a igreja sobre tais truques: “...também, movidos por avareza, farão comércio de vós...” (2Pe.2:3).


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