Segundo a Teologia da Prosperidade, Deus concede
riqueza e bens materiais a quem Lhe é fiel e paga o dízimo com generosidade.
Esta concepção não
existe na Bíblia, e está mal fundamentada, como se veremos a seguir.
1. A retribuição póstuma no
Antigo Testamento
A Teologia da
Prosperidade procura apoio nos escritos do A.Testamento
- Na verdade, os mais antigos livros sagrados do judaísmo propunham para esta vida mesma a retribuição devida aos bons e aos ímpios.
- Aos bons tocaria
vida longa, saúde, riqueza, ao passo que os ímpios teriam vida breve, doenças e
miséria,(Dt 28)
- Tal concepção era
devida às
noções antropológicas dos primitivos judeus:
Ø Afirmavam que após a morte do
indivíduo o espectro ou os refaim (núcleo da personalidade) iam para um lugar
subterrâneo (Sheol), onde ficariam adormecidos, incapazes de receber qualquer
sanção, donde resultaria a necessidade de admitir a retribuição na vida
presente.
Ø Com o tempo, porém, os judeus
foram percebendo a inconsistência dessa visão escatológica.
Ø O livro de Jó considera o problema, propondo o
drama de um homem temente a Deus, mas privado de seus bens materiais e ferido
por grave moléstia; às queixas de Jó Deus responde impondo silêncio; o
homem não é capaz de compreender os desígnios de Deus.
Ø
O livro
do Eclesiastes aborda também o problema e afirma que os valores materiais são
como o vento que não fica na mão de quem o quer apreender.
Ø
Através
de Jesus vemos a noção de ressurreição dos corpos, que põe fim à noção do Sheol
e permite antever a retribuição no além, estando consciente a alma do falecido:
Dn.12:2 “Muitos do que dormem no solo
poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são
esclarecidos resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a
justiça hão de ser como as estrelas por toda a eternidade”.
Assim se abria a possibilidade de
uma justa sanção no além, que os escritos do Novo Testamento professam
claramente:
Mt.25:36: “Dirá o
rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, recebei por
herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo”.
1Co.2:9: “O que
os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem jamais
percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que O amam”.
Jesus não propôs riqueza nem
prosperidade aos seus seguidores - Na verdade só quem promete prosperidade, reinos e poder no N.Testamento foi satanás - Jesus Prometeu, sim, vida, e vida em abundância.
Jesus não falava de forma alguma desta vida mortal, sempre ameaçada, que o homem conhece na terra, mas a
vida imortal em comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. (A Abundância prometida é esta)
O que Jesus previu para seus
discípulos foi uma parcela de sua cruz mediante a qual devem chegar à
bem-aventurança celeste:
“Se alguém quer vir após mim,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt.16:23).
Diz o Senhor no Apocalipse:
“Repreendo e educo todos aqueles que amo” (3:13).
O autor da epístola aos Hebreus explica o porquê dessa atitude
divina:
“É para a vossa educação que sofreis: Deus vos trata como filhos. Qual
é, com efeito, o filho cujo pai não educa? Se sois privados da educação da qual
todos participam, então sois bastardos e não filhos” (Hb.12:7).
Vê-se, pois, como é falso
apregoar que Deus paga em dinheiro e bens materiais a quem Lhe é fiel.
3. Ambigüidade das riquezas
Duas passagens do Novo Testamento
chamam a atenção para a ambiguidade da riqueza.
Sim é correto orarmos e desejar que não haja
miséria, mas também não se pode crer que o dinheiro seja um valor irrestrito;
ele pode mesmo tornar-se uma cilada, como se depreende da advertência do
Apóstolo:
1Tm.6:5-10: “… supondo que a piedade
é fonte de lucro. A piedade é de fato grande fonte de lucro, mas para quem sabe
se contentar. Pois nós nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma dele
podemos levar. Se, pois, temos alimento
e vestuário, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem
em tentação e cilada, e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que
mergulham os homens na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao
dinheiro, por cujo
desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a si mesmos se afligem com
múltiplos tormentos”.
Estas ponderações servem para dissipar a ideia de
que se podem comprar os favores divinos mediante uma piedade interesseira, fazendo-se da religião um Pronto
Socorro Financeiro.
- Os promotores do falso “evangelho da prosperidade” frequentemente gostam de falar sobre “semear”, “ofertas de semente da fé” e “retorno de cem vezes”.
- Uma oferta de fé é dinheiro dado com fé que Deus o multiplicará e devolverá ao doador.
- Quanto mais dinheiro você der - mostra que mais fé você tem - mais dinheiro você receberá em troca.
·
Pregadores da prosperidade
muitas vezes solicitam presentes a seus ministérios prometendo retornos em
espécie: "Envie-me R$ 10 e confie que Deus devolverá R$ 1.000".
Eles
dão aos seus apelos por dinheiro um esplendor espiritual com declarações como
“Deus quer abençoar você com um milagre” e “Jesus é maior do que a sua dívida”.
·
Eles usam de forma
inadequada versículos como Mc.4:8: “Outra, enfim, caiu em boa terra e deu
fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um.” É
bom lembrar que a “semente” neste
versículo é a Palavra de Deus (Mc.4:14),
não o dinheiro.
·
Os “teólogos da
prosperidade” se esmeram em espalhar o conceito de ofertas da semente da fé, “ensinando”
as pessoas a esperar um milagre quando semeassem uma “semente” de sua
“necessidade”.
·
“Para superar os problemas
da vida, ver sua vida se tornar frutífera, multiplicar e fornecer abundância
(isto é, saúde, prosperidade, renovação espiritual, na família ou em si mesmo),
você deve seguir a lei divina do semeador e da colheita.
·
Semeie a semente no solo de
sua necessidade, só assim você receberá a sua promessa” , ou seja, “Resolva
suas necessidades de dinheiro com sementes de dinheiro” .
·
Não importa quão pouco você
pense que tenha, semeie em alegria e fé, sabendo em seu coração que está
semeando para que possa colher milagres. Então comece a esperar todos os tipos
de milagres”
·
De acordo com os “teólogos
da prosperidade” o caminho para aproveitar a lei da semeadura e
da colheita é triplo:
1) Olhar para Deus como
sua fonte,
2) Dar primeiro para
que possa ser dado a você
3) Esperar um milagre.
·
Como um “texto de prova”
para o segundo passo, os pregadores da prosperidade gostam de usar Lc.6:38: “dai,
e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente
vos darão; porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão também.”
·
O uso indevido deste
versículo começa com sua aplicação para ganhos materiais - Jesus estava falando
primariamente do perdão em Lc.6:37, não do dinheiro.
·
Além disso, há uma diferença
entre “Dar e” e “Dar para que”. Pregadores da prosperidade
defendem um motivo egoísta para dar - dê para
que você possa obter - e eles declaram isso.
- A Bíblia ensina que nós damos para beneficiar os outros e glorificar o Senhor, não para enriquecer.
Ø Pregadores da prosperidade também usam Mt.17:20: “Pois em
verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este
monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” É claro que este versículo não diz nada
sobre ganhar dinheiro ou fazer ofertas financeiras.
Ø Outra passagem usada de forma indevida pelos pregadores da prosperidade
é Mc.10:29–30: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou
irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por
amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos,
irmãs, mães, filhos e campos.”
Ø Os pregadores da prosperidade aderem à promessa de “cem
vezes mais”, mas aplicam-na apenas a “casas” e “campos” - isto é, riqueza
material. Eles ignoram o resto da lista. Devemos supor que Jesus prometeu aos
seus seguidores cem mães literais ou que deveríamos esperar
cem vezes mais parentes de sangue do que temos agora? Ou Jesus estava falando
de uma crescente família espiritual? Já que as mães e pais e irmãos
e irmãs são espirituais, então talvez as casas e campos sejam espirituais
também.
Ø 2Co.9:10-12: “Ora, aquele que dá semente ao que semeia e
pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará
os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para toda generosidade,
a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus. Porque o
serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também
redunda em muitas graças a Deus.”
Ø Esta passagem diz que Deus fornece a semente para semear;
isto é, Ele fornece os recursos para darmos generosamente. E, quando damos,
Deus fornecerá mais recursos para que a doação continue.
Ø Note, no entanto, que a colheita não é ganho monetário, mas
“frutos da vossa justiça”.
Ø Além disso, é gratidão a Deus que transborda, não nossas
contas bancárias. A semente semeada
nesta passagem não resulta em milagres ou em riqueza pessoal.
Os que promovem a prosperidade aos cristãos também ignoram o fato de que os apóstolos não eram homens ricos. Os apóstolos certamente deram aos outros:
Os que promovem a prosperidade aos cristãos também ignoram o fato de que os apóstolos não eram homens ricos. Os apóstolos certamente deram aos outros:
“Eu de boa
vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma…” (2Co.12:15). Baseado na doutrina da prosperidade Paulo deveria ter
sido um homem rico.
No entanto, “Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e
nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos” (1Co.4:11).
Os apóstolos eram materialmente pobres, ainda que fossem espiritualmente
abençoados pelo Senhor.
Deus ama quem dá com alegria (2Co.9:7), mas não devemos supor que Seu favor será mostrado em retornos financeiros.
Deus ama quem dá com alegria (2Co.9:7), mas não devemos supor que Seu favor será mostrado em retornos financeiros.
Igualmente errado é nos apropriarmos de promessas feitas ao
Israel do Antigo Testamento para nós mesmos.
Nosso motivo para dar não deve ser receber dinheiro em
troca. Nosso objetivo deve ser piedade com contentamento (1Tm. 6:6–10).
Devemos orar: “Senhor, ajuda-me a aprender a estar contente
com o que tenho, mesmo que esteja com fome ou necessitado” (Fp.4:11–13)
O ensinamento da teologia da prosperidade equivale a pouco mais do que um esquema de enriquecimento rápido que ataca os desesperados e feridos entre o povo de Deus.
Pedro advertiu a igreja sobre tais truques: “...também,
movidos por avareza, farão comércio de vós...” (2Pe.2:3).
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