A Teoria do Duplo Cumprimento ensina que muitas profecias podem ter duplo cumpri mento semelhantemente as profecias do Antigo Testamento que apontavam para Cristo.
Tomemos por exemplo o Salmo 41.9 que diz: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar”. Esse fato ocorreu na vida do rei Davi, ele foi traído pelo seu amigo íntimo, seu próprio conselheiro, de nome Aitofel. Isto pode ser uma pré-figuração da traição de Judas no Antigo Testamento (2 Sm.15.12.31).
Este fato ocorrido na vida de Davi, posteriormente, os apóstolos aplicaram o Salmo 41.9 a traição de Judas.
Sendo assim, podemos dizer que uma profecia só tem “duplo cumprimento” quando às Escrituras mesmo corroboram para esse fato.
Quando os apóstolos citam alguns Salmos, sabemos que eles se referiam primeiramente aos ouvintes originais, mas o próprio Espírito Santo o “jogou” para o futuro cumprimento.
Teólogos dispensacionalistas fazem o mesmo com algumas profecias sobre escatologia.
Veja o exemplo da Grande Tribulação descrita por Jesus: “...porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais”. (Mt.24.21)
A grande maioria dos estudiosos e teólogos concordam que esse versículo fala somente sobre a destruição de Jerusalém que ocorreu no 70 d.C, mas alguns acreditam e aplicam aqui o duplo cumprimento afirmando que ainda haverá outra Grande Tribulação em escala mundial sobre o governo do Anticristo.
De acordo com o teólogo Joy Rogers:
...“É óbvio que a maioria das profecias de Daniel já foram cumpridas. A maioria dos futuristas e historicistas prontamente admitem isso, mas não fazem as aplicações históricas a todos os reinos e governantes da história antiga como eu fiz. Em vez disso, o que eles fazem é tomar as passagens mais obscuras e aplicá-las a eventos na Idade Média ou do futuro. Isso é algumas vezes chamado de: “A Teoria do Duplo Cumprimento”.
Verificamos que determinada passagem das Escrituras pode ter uma referência dupla, uma imediata e local, e a outra profética e bem distante, neste caso , há grande confusão se não reconhecemos isso e não levamos em consideração o aspecto profético da dupla referência.
Diversas vezes durante a história, indivíduos recusaram-se a aceitar a referência imediata e local, mas afirmaram que a referência só trata do lado profético e distante, no entanto verificamos que ao fazerem isso, a principal intenção destes era serem indiferentes à sua própria responsabilidade no assunto.
Assim foi nos dias de Ezequiel, pois ele foi comissionado para dizer aos israelitas: “Filho do homem, eis que os da casa de Israel dizem: “Filho do homem, eis que os da casa de Israel dizem: A visão que este tem é para muitos dias, e ele profetiza de tempos que estão longe. Portanto dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Não será mais adiada nenhuma das minhas palavras; e a palavra que falei se cumprirá, diz o Senhor DEUS”. (Ez,12:27-28)
A Dupla Referência é simplesmente o reconhecimento de que o cumprimento de determinada passagem das Escrituras pode não ter esgotado seu significado, mas que pode haver um cumprimento maior e posterior da passagem, um estudo mais minucioso nos revela que isso não é raro nas Escrituras, aparecendo pois, numerosas vezes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento; outro fato que revela-se neste estudo é que isso se aplica tanto a eventos quanto a pessoas, pois as pessoas são muitas vezes tipos e representações de outras pessoas.
Quem, por exemplo, imaginaria que havia algo mais do que uma referência imediata e local para Isaías e seus filhos na declaração de Isaías 8:18: “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos EXÉRCITOS, que habita no monte de Sião”. (Isaías 8:18)
No entanto, essa declaração é citada em Hebreus 2:13 como se referindo a Cristo e Seus irmãos.
Isso é simplesmente um exemplo de Dupla Referência, e onde isso não é levado em consideração, o resultado pode ser confusão, e pode haver uma incapacidade de receber toda a verdade.
A Dupla referência explica muitas referências no Antigo Testamento como tendo um sentido e aplicação duplos.
Sem dúvida, assim como algumas pessoas do Antigo Testamento prefiguravam Cristo, de modo semelhante pessoas que há muito tempo deixaram de existir prefiguram o Anticristo em alguns lugares.
Tal caso é aquele que se acha nas predições de nosso Senhor sobre a destruição de Jerusalém, que veio a ocorrer no ano 70 d.C., que prefigura a invasão final da Terra Santa por exércitos do Anticristo, e a Grande Tribulação que então sobrevirá; é importante salientarmos que em nada diminui o cumprimento imediato e local, nem diminui em nada o pleno sentido e força da profecia em seu primeiro cumprimento.
No caso da destruição de Jerusalém em 70 d.C., a profecia se cumpriu literalmente, e incontáveis milhares de judeus foram mortos do modo mais cruel e bárbaro que dá para imaginar, mesmo assim esse cumprimento não esgotou a profecia, pois o Livro de Apocalipse, que foi escrito depois desse evento, ainda aguarda uma matança terrível de judeus e gentios, que reduzirá a população deste planeta à quase metade.
Jesus declarou que “naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá”. (Marcos 13:19)
Isso é, a Grande Tribulação será um tempo de aflição que não tem paralelo na história, e do qual, em matéria de terror e selvageria, outros eventos não chegarão nem perto, de modo que é evidente que a destruição de Jerusalém não esgotou essa profecia.
Pensadores liberais e modernistas não levando em consideração a Dupla Referência (Ou Multipla) na interpretação da Bíblia procuram um cumprimento imediato e local de certas profecias, e quando essas não se cumprem literalmente no tempo designado por esses indivíduos que se julgam especialistas na arte de interpretar, eles as explicam como falhas por parte de Deus.
Pedro falou desses zombadores em sua época: “Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda” Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”. (2 Pedro 3:3-4)
Assim como os israelitas rejeitando a aplicação imediata e local de uma profecia, é comum vermos pessoas negando a realização futura de certas profecias; e ainda mais comum é a aceitação da referência imediata e local e a negligência do cumprimento mais pleno e distante.
Os escarnecedores mencionados acima manifestariam sabedoria muito maior se prestassem atenção ao aviso de Habacuque 2:2-3: “Então o SENHOR me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo. Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará”. (Habacuque 2:2-3) Essa profecia se aplica à vinda de Cristo em Seu segundo advento em Hebreus 10:37 em que esses versículos são citados em parte nesse contexto. É evidente, pois, que essa profecia tinha uma dupla referência.
Muitas profecias têm essa característica, o fato de que até mesmo os próprios profetas às vezes não percebiam seu duplo significado, à pessoa que observa montanhas, ela só vê uma grande e elevada cadeia de montanhas sem discernir que há um vale amplo entre as montanhas da frente e as que ficam mais ao fundo.
Até mesmo muitas das profecias da vinda de Cristo têm parte nessa natureza dupla.
Uma das melhores ilustrações disso se vê na profecia de Isaías 61:1-3, que mistura elementos de ambos os Adventos de Cristo, transformando-os num só evento aos olhos do profeta.
Contudo, quando Jesus pegou o rolo de Isaías e o leu na sinagoga de Nazaré, Ele separou com muita habilidade as duas partes dessa profecia mista. Ele parou de ler no meio da profecia com as palavras “Pregar o ano aceitável do Senhor”, então proclamou “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos”, Lucas 4:18-21. Não se pode dizer que o restante dessa profecia se cumpriu naquele dia, nem que tenha ainda se cumprido, depois de quase dois mil anos. Mas com certeza se cumprirá no devido tempo.
No que se refere a indivíduos, encontra numerosos exemplos nos livros proféticos, principalmente em Daniel, vemos o Anticristo definitivo várias vezes retratado sob as figuras imediatas e locais do rei da Babilônia, do rei da Grécia, do rei da Síria, etc.
Ninguém pode negar o cumprimento que ocorreu logo depois que a profecia foi dita, no entanto este cumprimento de forma alguma esvazia a certeza que as mesmas profecias têm um segundo, ou até mesmo maior, cumprimento que ainda virá a se cumprir nos últimos dias na pessoa do Homem do Pecado.
Outro exemplo que é dito acerca de um indivíduo. Em Ezequiel 28, se faz referência ao “rei de Tiro” nos versículos 11-19, e essas palavras sem dúvida tiveram um cumprimento parcial em algum homem que ocupou essa posição e manteve esse título.
Contudo, a linguagem vai além do que se poderia aplicar a algum homem, pois este é chamado de “o querubim ungido”, v. 14, “querubim protetor”, v. 16, títulos que jamais são dados a ninguém, exceto alguns do exército celestial, além disso é mencionado que ele esteve no Éden, o jardim de Deus, v. 13. Obviamente, deve haver uma dupla referência nesses versículos: uma a um mero homem, a outra ao próprio Satanás.
Precisamos ter muito cuidado e refrearmos o desejo inato de sensacionalizar a Palavra de Deus tentando descobrir coisas secretas, muitas pessoas o fazem tentando mostrar ‘um conhecimento místico e especial da Bíblia que só esta pessoa possui” , mas sabemos que desta forma foi que surgiram e ainda surgem nos dias atuais um sem número de heresias dentro das igrejas.
O curso seguro é apegar-se somente a um cumprimento profético secundário onde textos posteriores declaram que existe tal cumprimento. Caso contrário, pode-se facilmente cair no engano de Orígenes de espiritualizar o que foi designado para ser aceito só literalmente.
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